A chegada do Pug à Europa

A referência mais antiga conhecida de um cão, que pode muito bem ter sido o precursor do pug, confirma a crença de que a Europa Ocidental conhecia o lo-sze antes dele ter sido visto na Rússia. A história deste pequeno cão, que salvou a vida de William, o Silencioso, o Príncipe de Orange e, assim, alterou a história da Europa, é um clássico na história do pug e aparece em “Relatos de Sir Roger William nos Países Baixos”, publicado em 1618, e refere-se a uma incidente que deve ter ocorrido entre 1571 e 1573. Na ocasião, houve um ataque surpresa dos espanhóis sobre o acampamento holandês. O cãozinho em questão, cujo nome acredita-se ter sido Pompey, acordou seu dono, antes de qualquer um de seus homens, com arranhões, chorando e pulando em seu rosto. Embora o cão tenha sido descrito como um “pequeno cão de caça branco”, pode-se considerar através de outras partes de sua descrição, que na verdade se tratava de um ancestral do pug moderno. Podemos, portanto, estabelecer com um razoável grau de certeza que pequenos, cães de focinho curto que existiam na China poderiam ter viajado do Oriente para o Ocidente nos séculos XVI e XVII, e havia uma boa razão para sua popularidade na Corte de William, o Silencioso e seus sucessores. É possível que tenha sido neste período que uma criação cuidadosa e seletiva mudou o corpo mais alongado do lo-sze para um cão mais compacto que, eventualmente, recebeu o nome de pug. Durante os cem anos que se passaram entre o reinado de William, o Silencioso e a chegada à Inglaterra de seu bisneto, nada se ouviu sobre os pugs, exceto que eles estavam sempre presentes na corte holandesa. Durante os últimos anos do século XVII, encontramos sinais da presença do pug em muitos países europeus, como França, Itália, Saxônia e muitos dos estados alemães. Originalmente conhecido na Holanda como “mopshond”, na França, como “doguin” e frequentemente na Inglaterra como mastiff holandês, não há certeza de como ou por que o nome “pug” começou a ser usado nesse país. No entanto, as palavras “pug”, “pugg” e “pugge” eram muitas vezes utilizadas para indicar afeto, e há muitos exemplos de seu uso. A palavra pode ter alguma derivação de “puck”, que era normalmente usada para indicar malícia ou maldade. Pug era um termo aplicado a pequenos macacos muito populares como animais de estimação nos séculos XVII e XVIII, e sem dúvida os cãezinhos travessos de focinho achatado tinham algo em comum, tanto em aparência quanto em comportamento com esses macaquinhos.

A História do Pug

Sempre houve muita controvérsia sobre a origem do Pug. A verdade é que praticamente nada se sabe sobre como, quando ou porque esses cães de focinho chato, pelagem curta e cauda encaracolada vieram à existência. Há, no entanto, muito poucas dúvidas sobre o seu local de origem: a China. Há boas razões para acreditar que todas as raças de focinho curto, com exceção do bulldog e os membros colaterais de sua família, tiveram origem no oriente. Duas hipóteses sobre o início da formação da raça foram levantadas, mas hoje já são totalmente descartadas. A primeira seria a crença de que os pugs descendem e tornaram-se um tipo de mastiff pigmeu. Essa idéia provavelmente surgiu do fato de que os primeiros pugs a chegar na Inglaterra foram por vezes referidos como mastiffs holandeses. O único ponto real de semelhança entre o mastiff e o pug fulvo é a cor e pelagem. A estrutura dos crânios das duas raças varia enormemente e isso é o suficiente para demonstrar que é muito improvável que o pug tenha qualquer ligação com o enorme molossus, conhecido pelos fenícios, de quem o mastiff, o alaunt medieval e o bulldog descendem. O segundo engano é supor que o focinho curto do pug tenha sido provocado por esmagamento ou danos aos ossos nasais em filhotes. Obviamente, uma operação dessas afetaria o indivíduo, mas não seus descendentes. Criação seletiva não é novidade e tem sido praticada por diversas razões há séculos. Cães de focinho curto parecem ter sido conhecidos na China muitos anos antes da era cristã, já que “cães de boca curta” são mencionados por Confucio (cerca de 551 aC). Registros do século I dC mencionam cães, conhecidos como “pai”, que traduzido parece significar um cão de pernas curtas e cabeça pequena, cujo lugar era debaixo da mesa. Desse período em diante, uma série de imperadores parecem ter tido interesse em cães pequenos, muitas vezes à custa de suas funções imperiais. A única forma de obter alguma idéia da aparência de cães chineses é a partir de desenhos e pergaminhos. Estes, como a maioria das obras de arte orientais, são extremamente estilizados, mas parece que três tipos principais de cães pequenos foram destacados: o cão leão, o pequinês e o lo-sze, e é desse último que os pugs europeus parecem a descender. Imagens mostram que o lo-sze era parecido com o pequinês, exceto por sua pelagem curta e cauda sem franjas. As cores variavam e a maioria dos cães tinham mais que uma cor. Os principais requisitos físicos do lo-sze eram que eles deveriam ser o menor possível, que a pelagem deveria ser curta e a pele muito elástica, pois era essencial que ele exibisse a “marca do príncipe”, que eram três rugas na testa e uma barra vertical, formando assim o caracter chinês para a palavra “príncipe”. Uma marcação (diamante) na testa era também muito apreciada. Um corpo compacto, bons ossos e uma face plana, bem como um queixo quadrado eram valorizados, e embora muitos dos cães tivessem suas caudas encaixadas, o rabo enrolado, bem como a curva dupla eram todos conhecidos e permitidos. As orelhas, comparadas por um escritor à metade de um damasco seco, eram posicionadas um pouco mais para o lado do crânio do que as do pequinês e outras raças similares. Não há muito mistério sobre a migração de pequenos cães orientais para os países do ocidente. Houve comércio de seda e outras mercadorias entre a China e o mundo ocidental já no tempo da dinastia Han (ano 200 aC). Relações comerciais com Portugal foram abertas em 1516, com a Espanha em 1575, e com a Holanda em 1604. Pedro, o Grande enviou uma embaixada à corte do Imperador K'ang Hsi (1662-1723), e está registrado que o enviado chinês que foi convocado para dar as boas vindas ao embaixador russo estava muito interessado em cães, vários dos quais acompanhavam o embaixador, e um ou dois lhe foram presenteados. Em um nível mais prosaico, não há dúvida de que os marinheiros de Portugal e Espanha estavam bem conscientes de que as senhoras das cortes de seus países representavam um ótimo mercado para cães de pequeno porte de uma nova raça.